Oba-oba criativo

Novembro 28th, 2007 de Rodrigo Helcer

A democratização do insight ou da participação de um brainstorm é importantíssimo, mas definitivamente não é sinônimo de um produto criativo.

É a mais pura verdade que todo mundo tem o direito e o dever de ter boas idéias, boas soluções, boas inspirações e até aspirações para que as dificuldades da vida ou até as necessidades de um cliente sejam resolvidas.

No entanto, para cada um, existe um processo que é baseado nas suas características individuais. Algumas pessoas são mais imediatistas, outras práticas, umas racionais, existem também os viajandões, os intimistas e até os Barbárvores que levam 300 anos pra falar, mas quando falam vale cada segundo em que permaneceu calado. Tenho certeza que cada um tem a sua solução baseada no seu estilo de ser e de suas referências.

Porém, o que tem acontecido muito por aí é o estabelecimento como modelo de processo criativo a simples exposição de insights e dinâmicas de discussão multidisciplinar, ou seja, com certeza será considerado como o produto criativo o que será mais coerente inicialmente, o que todas as partes concordarem e o que por fim não for discrepante para os objetivos básicos. Só que infelizmente numa reunião de dinâmica dessa natureza só há espaço para o desenvolvimento das primeiras idéias que vem na cabeça de cada um que estiver ali, isso quando os outros não estão ouvindo absolutamente nada pois estão construindo mentalmente alguma coisa pra falar quando o próximo calar-se. São reuniões típicas onde passam-se horas falando sobre obviedades, sobre as referências comuns a todos, além de chegar a um senso quase sempre previsível.

Mas isso não é culpa dos envolvidos e sim do processo em si. Isso aconteceria com qualquer sala repleta de gênios. Imaginem só, Da Vinci, Van Gogh, Gandhi, Vinícius de Moraes e Darwin tentando resolver qualquer coisa em conjunto. Não tenho a menor dúvida que se saíssem 2 vivos dessa reunião já seria muito. E o produto da reunião? Talvez o que Darwin chamaria de “teoria da confusão”.

Agora faz o seguinte, experimente fazer o contrário, imagine dar um tempo para um desses gênios ou qualquer pessoa, um reles mortal se debruçar individualmente ou no máximo em dupla, em tripla, ou até em quadra, mas respeitando acima de tudo afinidade e a sintonia (palavra boa para essse caso) e instiguem-os a visitarem seu repertório, seu consciente, seu subconsciente, fazerem todas as associações possíveis, previsíveis e imprevisíveis, misturá-las, ir pra frente, ir pra trás, selecionar várias, invertê-las, e no momento em que cada um tiver com o que for de melhor no seu jeito de pensar apresente em uma reunião. Essa reunião deve ser bem orientada onde em cada momento um apresenta e os outros absorvem, ouvem e colocam sua contribuição. Eu não tenho a menor dúvida de que todos terão excelentes colaborações em todas as soluções, e que as soluções encontradas não teriam tanta força e riqueza se não tivessem sido buscadas num processo realmente criativo.

E o que é um processo criativo? É essa atividade que busca, a concentração, a atitude de refletir internamente e de tentar encontrar algo inesperado ou algo que sensibilize, que toque e realmente fale algo de novo ou de uma forma nova.

Bem, é assim que nesse mesmo processo também surge um escultor que pode fazer uma excelente composição ou até mesmo um pintor que pode resolver enigmas matemáticos. É uma questão de concentração, de criação, não de repentismo, chutaísmo ou discussão, seja você um planejador, um diretor de arte, um atendimento, um jogador de golfe ou um DJ que vai colocar um som numa festa.

Ah, lembrei-me agora daqueles shows beneficientes do tipo Live Aid ou SOS Planet Earth em que no final sobem no palco 10 bandas pra tocar a última música junto. Aquilo é um horror e não passa de uma política romana antiga do pão e circo. Mas e você, afinal, o que você preferiria, ter dez mp3 de músicas tocadas por 10 bandas juntas ou dez mp3 com as melhores músicas dessas 10 bandas?

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